DAS TRÊS TRANSFORMAÇÕES
(Assim Falava Zaratrusta, págs. 35-37)
"Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança".
Camelo
"Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está bradando por coisas pesadas, e das mais pesadas.
Há o que quer que seja pesado? ? pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se como camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis ? pergunta o espírito sólido ? a fim de eu ditar sobre mim, para que a minha força se recreie?
Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez?
Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela celebra a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?
Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e padecer fome na alma por causa da verdade?
Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizades com surdos que nunca ouvem o que queremos?
Ou será submergimo-nos em água suja quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos?
Ou será amar os que desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?
O espírito sólido sobrecarregar-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto".
Leão
"No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.
Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão.
Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor?
Tú Deves, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: Eu quero.
O tu deves está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: TU DEVES!
Valores milenários brilham nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:
Em mim brilha o valor de todas as coisas.
Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o eu quero!. Assim falou o dragão.
Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não bastará besta de carga que abdica e venera?
Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão1.
Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.
Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e coisa própria de um animal repace?. (não encontrei sinônimo para animal repace).
Como o mais santo, amou em seu tempo o e agora tem que ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, afim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito.
Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude em criança?"
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